Fábrica de tensão

Revista Isto É

N° Edição:  1575 |  08.Dez.99

Marilda Novaes Lipp

Fábrica de tensão

A psicóloga Marilda Novaes Lipp conta por que umas pessoas tendem a se estressar mais do que outras.

CARLA GULLO

 Um simples pensamento pode estressar mais do que o trânsito, o desemprego e as brigas entre os casais. É o que afirma a psicóloga carioca Marilda Novaes Lipp, 47 anos, especialista no tratamento de stress. Radicada em Campinas, interior de São Paulo, Marilda é autora de vários livros sobre o assunto e agora acaba de lançar mais uma obra pela editora Contexto, intitulada O stress está dentro de você. No livro, ela e outros co-autores explicam por que umas pessoas têm mais tendência a se estressar do que outras e como um pensamento pode virar uma verdadeira fábrica de stress. “Existe uma predisposição genética que pode ser reforçada pela influência dos pais”, diz Marilda. A psicóloga dirige o Centro de Controle de Stress de Campinas, com filiais em vários locais como São Paulo, Campo Grande, Rio de Janeiro e João Pessoa. Foi para falar desse stress interno que Marilda recebeu Istoé em sua clínica em São Paulo.

Istoé – O que é, exatamente, o stress interno?
Marilda Novaes Lipp – É aquele que você próprio cria. O mundo lá fora pode estar quase perfeito, mas se cria uma situação de tensão. Talvez por ser muito ansioso ou porque se tem valores muito altos, ou por querer ser amado por todo mundo. Há também aqueles que não sabem se impor, não sabem dizer não, ou ainda são muito empreendedores, que fazem duas ou três coisas ao mesmo tempo. É como se tivesse uma fábrica de tensão dentro deles. Obrigam seu próprio organismo a trabalhar por dois ou três.
Istoé –Como esse stress interno é gerado? A partir da educação, dos modelos de cada um?
Marilda –Uma parte é realmente criado pela maneira do pai e da mãe educar a criança. Mas, além disso, existe a vulnerabilidade de cada um. Dedico um capítulo no livro só falando disso. Tento explicar por que para determinadas pessoas a vida é tão pesada, tão complicada. Por que essas pessoas nunca se sentem tão livres, felizes? Tudo é difícil para elas. Às vezes, é porque elas nasceram com uma predisposição a se estressarem mais.
Istoé – Um stress genético?
Marilda –Sim. Seria uma hipersensibilidade do sistema límbico (parte do cérebro responsável pelas emoções) e do sistema nervoso. Os dois se somam e a pessoa fica emocionalmente mais vulnerável.
Istoé –E essa pessoa está condenada a ser estressada?
Marilda – Nem sempre. Se ela nasce com essa predisposição, mas encontra um ambiente adequado (pais tranquilos, por exemplo), essa vulnerabilidade pode até não se manifestar, porque fica latente, como se estivesse dormindo. Por outro lado, se alguém já nasce com uma pequena vulnerabilidade e encontra um ambiente muito desagradável, com pessoas doentes, neuróticas, ansiosas, essa vulnerabilidade será exacerbada. Então, o stress que vem de dentro é uma combinação de um fator genético associado a uma prática familiar inadequada. Essa pessoa vulnerável já se reconhece desde criança, não precisa ser um adulto.
Istoé – Como reconhecer isso numa criança?
Marilda – É aquela que chora mais quando pequenininha, que tem muita cólica, que tem medo de tudo. São crianças mais frágeis, mais sensíveis. Agora, se os pais souberem criar essa criança, eles podem minimizar essa vulnerabilidade.
Istoé –O que eles podem fazer?
Marilda –Ter bom senso. Por exemplo, eles souberam de um assalto na casa vizinha. Em vez de chegar para a criança e dizer: “Ah, meu Deus! O vizinho foi assaltado. Qualquer dia a gente é assaltado também. Olha que coisa horrível, a gente não tem mais segurança neste mundo”, o que assusta a criança, o ideal é que se diga algo assim: “Fulano foi assaltado, vamos ter mais cuidado aqui em casa para evitar que isso aconteça com a gente. São coisas da vida e todos nós temos que tomar cuidado.” Dessa maneira, aponta-se a solução para o problema e não se apavora com ele. O pai e a mãe que não criam stress são aqueles que sempre enfocam a solução da dificuldade e não ficam girando em torno da dificuldade.
Istoé – No que mais os pais podem influenciar?
Marilda – Em quase tudo. Aquela pessoa que não sabe dizer não, por exemplo. Isso pode ter começado com o pai e com a mãe. Vamos dizer que a criança tem um brinquedo e os coleguinhas vêm brincar e querem aquele brinquedo. A mãe insiste para ela emprestar. Mas a criança sabe que o amiguinho é aquele que quebra o brinquedo, que não empresta o brinquedo dele. Com a insistência, a mãe está ensinando a criança a não dizer não. Mais tarde, vamos dizer que alguém peça alguma coisa para a criança na escola, o caderno, por exemplo, e a criança não queira emprestar e a mãe dela fale: “Poxa, mas não seja egoísta, empreste o seu caderno. O que é que tem o seu colega copiar isso. Não tem nada demais.” Então, a criança aprende: “Quem diz não é egoísta.” E, na realidade, “dizer não” não é necessariamente egoísmo.
Istoé – E como fazer para consertar o aprendizado da infância?
Marilda –Uma das maneiras é aprender a pensar. Estou convencida de que o pensamento adequado é a chave do sucesso na vida. Ao pensar de uma maneira anti-stress, mantém-se o controle sobre a vida.
Istoé – O que é um pensamento anti-stress?
Marilda – É uma maneira mais tranquila de pensar. Tudo é uma questão de raciocinar, de encarar as coisas de modo positivo. Ou seja, pensar que a vida é cheia de desafios, que podem ser vencidos ou não. Por exemplo, se eu entender que nem todo mundo vai me aplaudir quando eu for fazer uma palestra, vou me estressar muito menos na hora de falar. É entender que unanimidade não existe.
Istoé – Então, em vez de se fixar naquele que não gostou, pensa só naquele que gostou. Isso é uma maneira de barrar esse stress?
Marilda – Sim. Uma outra maneira é sempre tentar ver o que a situação tem de bom. Claro, a morte de uma pessoa querida pode não ter nada de positivo, mas a maioria dos fatos não é constituída de coisas tão dramáticas. Se alguém perde o emprego, por exemplo, e consegue entender que essa será uma oportunidade para enfrentar um novo desafio, sem dúvida será melhor do que ficar se martirizando com isso. É pensar que vai mudar a vida e crescer. Outro dia eu entrevistei um rapaz que sabe pensar. Ele teve um ataque de pânico. Foi à clínica, tratamos, e na última entrevista ele me disse: “Aprendi a lidar com o pânico e não tenho nenhum problema, porque quando começa alguma coisa eu controlo.” Eu perguntei: “Como é que você interpretou esse problema?” Aí ele respondeu: “Olha, foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, porque eu aprendi a pensar melhor, comecei a andar, a perder peso, passei a me relacionar melhor com as pessoas. Tudo porque houve uma crise e eu acordei.” Então, para a grande maioria dos eventos negativos há um lado positivo.
Istoé – E como é criar stress com o pensamento?
Marilda – É quando se pensa de uma maneira estressante. Dou um exemplo. Alguém vai fazer uma entrevista de emprego. Mas, antes de sair de casa, começa a pensar assim: “Meu Deus do céu, eu vou fazer essa entrevista, mas acho que não vou conseguir. O que é que eu vou dizer para eles quando me perguntarem por que eu sai do outro emprego? Será que vou dizer que o meu chefe não gostava de mim? Será que vou dizer que eu não me dava bem com os meus colegas, será que ele vai descobrir que, afinal de contas, eu não sou tão bom assim?” Dessa maneira, ele chega à entrevista visivelmente transtornado, ansioso e com taquicardia. Então, a situação é tal que é preciso tomar cuidado para o pensamento não agir contra você, em vez de agir a favor.
Istoé – Ou seja, aquela história do pensamento positivo de fato funciona?
Marilda – Sim. E a primeira coisa a fazer é parar o pensamento errado, barrar a fábrica de stress. Existe uma técnica. É só imaginar uma tela de computador na sua frente. Nela está pipocando a palavra pare! Só que cada letra de uma cor diferente. O P vermelho, o A de listrinha, o R verde, o E azul e um belo ponto de exclamação (para tirar o foco do pensamento estressante). Aí, quando se começa a pensar de um modo estressante, é só dizer: pare! Após falar isso, respire fundo e substitua a imagem na tela. O pare! vira uma paisagem, uma viagem, ou alguma coisa que se goste de fazer (como jogar bola).
Istoé – Quais as consequências desse stress que vem de dentro?
Marilda –As mesmas do stress que vem de fora ou até mais. Porque o de dentro é intermitente. Você não desliga. Então, ele também desencadeia o mecanismo de produção da adrenalina, desgaste do organismo, acarreta doenças, úlceras, queda de cabelo, aumento de pressão arterial. O stress pode abalar o seu organismo como um todo.
Istoé – Como ajudar os pacientes a mudar o pensamento?
Marilda –Eu pratico com eles. Eles trazem um evento que estão interpretando de uma maneira mórbida, às vezes neurótica. E eu digo: “Vamos ver como a gente poderia pensar nisso aí.” Passo exercícios em que eles anotam os pensamentos deles e eles mesmos tentam reestruturar na semana. Durante a sessão fazemos outros exercícios e aquilo que chamamos de volteio, um tipo de dramatização em que a pessoa fala de um jeito, aí você pede para ela ser o ouvinte e você fala de outra maneira, e assim vai praticando.
Istoé – Mas precisa tomar cuidado para não cair no conformismo com isso, não é?
Marilda – Esse é um ponto superdelicado porque a primeira coisa que eu oriento os pacientes é o seguinte: “A vida não está boa lá fora? Está acontecendo alguma coisa? Tente mudar aquilo que está estressando você. Arme estratégias, tudo tem jeito.” Então, por exemplo, seu chefe está passando todas as tarefas difíceis para você? Tente mudar isso, vá lá conversar com ele, tente arranjar algumas tabelas para estar ocupado na hora em que ele chegar perto. Arranje alguma estratégia que não vá prejudicar você e possa livrá-lo dessa sobrecarga. Não se pode conformar e dizer: “Ah, é assim mesmo e pronto.” Agora, depois que você tentou tudo o que podia e não tem solução, aí o jeito é se adaptar.
Istoé – Como você concluiu que o stress pode ser interno?
Marilda – Da observação de pacientes. Alguns vão para a clínica altamente estressados e não há razão na vida deles para estarem assim. Mas por dentro existe um turbilhão.
Istoé –Em seu livro, há um capítulo chamado “Você me estressa e eu estresso você”, que fala sobre o relacionamento homem-mulher. Como “criar” stress dentro de um casamento?
Marilda –Sempre há uma expectativa dentro de um relacionamento. Há uma razão pela qual, dentre todas as pessoas disponíveis, você escolheu aquela. Só que, com o passar dos anos, às vezes se esquece a razão pela qual se casou e a gente começa a lutar por outras coisas. Então, por exemplo, uma mulher que casa com um homem porque ele é muito seguro, porque oferece proteção. Mais tarde ele pode virar autoritário e a mulher passa a reclamar disso. Se ele muda, o casamento acaba. Ela não percebeu, mas a razão por que ela casou foi aquela. Logo, a gente tem de saber que expectativa você trouxe para o casamento. Então, “você me estressa e eu estresso você” tem a ver com essas expectativas que o casal traz para o relacionamento.
Istoé – Há vários tipos de stress. Como um específico do fim do ano. Essa obrigação de estar feliz no Natal, na virada do ano 2000. Isso pode ser prejudicial?
Marilda –Nesse período, a so-ciedade espera que você fique feliz. Mas o número de pessoas que não se sentem felizes nessa época de festas é muito grande. Tem muito suicídio, muita crise de ansiedade. Tanto que eu não fecho a clínica na época do Natal porque a maior procura é durante esses dias. É o stress que vem de dentro associado com o que está acontecendo lá fora. Eu tenho de estar feliz e a sociedade está me cobrando isso.
Istoé – Além dessa tentativa de mudar os pensamentos estressantes, o que mais envolve seu trabalho?
Marilda –O tratamento não é chamado de análise nem de psicoterapia. E é chamado de treino de controle do stress. Dura 15 semanas e inclui exercício físico e alimentação anti-stress, rica em legumes, verduras, frutas, e também relaxamento. São três pilares que ajudam a controlar os sintomas do stress. O quarto pilar é a parte de reestruturação cognitiva, que é mudar o modo de pensar da pessoa, é passar técnicas para lidar com a situação.