Fim da Copa do Mundo pode causar sensação depressiva, diz especialista

Portal G1 14/07/2014

Segundo psicóloga, fim de grande evento minimiza produção de adrenalina.
Marilda Lipp compara fim do mundial com volta das férias ao trabalho.

Leandro Filippi Do G1 Campinas e Região

Camisas das seleções da Copa voltam para o armário após fim da Copa do Mundo (Foto: (arquivo pessoal/ Luís Corvini))
Camisas das seleções voltam para o armário após fim da Copa (Foto: Jarbas Soares/ G1)

Em pouco mais de um mês, 64 jogos, feriados, mudanças na rotina, festas  e muitas emoções. O mundial chegou ao fim e toda essa euforia deixa um “preço”. Segundo Marilda Novaes Lipp, diretora fundadora do Centro Psicológico de Controle do Stress de Campinas (SP), a depressão pós-Copa do Mundo existe e é natural, ao menos por um período. Na avaliação da especialista, o desânimo pelo fim da competição dura até duas semanas e tem um nome científico, abulia.

É de se esperar agora um certo desânimo, sobretudo aos que viveram mais intensamente este período”
Marilda Lipp

“É um dado que as pesquisas mostram. Após um evento muito grande, em que a pessoa fez um investimento emocional significativo, a produção da adrenalina é minimizada”, explicou a especialista. De acordo com Marilda, além do aspecto biológico, o fim de algo que era muito aguardado pode deixar as pessoas sem ter o que olhar para frente. “É de se esperar agora um certo desânimo, sobretudo aos que viveram mais intensamente este período”, completou.

Ronaldo-maníaco
Histórias de pessoas que mudaram a rotina para viver a Copa do Mundo no Brasil não faltam. Uma delas é de Lucas Mendes de Carvalho, de 21 anos, fanático por futebol e principalmente pelo craque português Cristiano Ronaldo. Morador de Santos, Lucas pediu demissão do emprego de auxiliar administrativo para estar durante o mundial em Campinas, onde a seleção lusitana montou a base de treinamentos. Ele passou 20 dias na casa de uma tia na cidade, acompanhou os treinos, fez plantão na porta do hotel onde estavam os portugueses, viajou para assistir a dois jogos da seleção europeia e pôde ver um gol do ídolo ao vivo.

“Para mim praticamente bateu uma depressão no dia 27 [de junho], quando voltei para Santos. Eu estava gostando muito daquela adrenalina, cada dia encontrar um pessoal diferente, ver histórias diferentes. Foi uma experiência muito boa, não queria que acabasse tão cedo”, disse.

Lucas viu um gol de Ronaldo em Brasília (Foto: Lucas Mendes/ arquivo pessoal)
Lucas viu um gol de Cristiano Ronaldo em Brasília
(Foto: Lucas Mendes/ arquivo pessoal)

O maior momento de Lucas na Copa, segundo ele mesmo, foi um “meio-autógrafo”  em uma camisa conseguido quando ficou cara a cara com Cristiano Ronaldo. “Não consegui tirar a camisa porque eu fiquei em choque na hora. Só sei que eu dei uma caneta que estava no meu bolso pra ele”. Em meio ao empurra-empurra na grade do campo de treinamento, a assinatura ficou pela metade.

A ausência de meio autógrafo e o desempenho da seleção portuguesa, que caiu logo na primeira fase, não mancharam a experiência do morador de Santos. Para ele, a experiência foi ótima e a batalha contra a depressão pós-Copa tem um aliado que já é um velho conhecido: o ídolo Cristiano Ronaldo. “A vida sem Copa vai ser muito triste neste começo. Vou correr atrás de um novo emprego, juntar dinheiro e, quem sabe, logo conseguir uma viagem para a Espanha para ver um jogo do Ronaldo”, completou o fã do jogador do Real Madrid.

Intercâmbio cultural
O jornalista Luis Corvini Filho também tem a fórmula para não ficar deprimido. É só acreditar que o perído pós-Copa é apenas o início do planejamento para o próximo mundial. “Não existe vida sem Copa. A diferença é que começa uma nova fase. Agora é trabalhar e juntar dinheiro para a viagem rumo a Rússia em 2018”. Corvini Filho fala com a experiência de quem já esteve em quatro mundiais, na Coréia e Japão em 2002, na Alemanha em 2006, na África do Sul em 2010 e agora no Brasil. Estar em planejamento, no entanto, não significa que o mundial no país em que nasceu não vá deixar saudades.

“O que mais faz falta é essa alegria de saber que a gente pode ter momentos de felicidade imensa e conhecimento de outras pessoas. Isso que faz falta, não ter contato com outras pessoas, não ter a chance de conhecer novas culturas de uma forma tão intensa”, disse.

Entrada do estádio Mineirão para a partida entre Brasil e Chile (Foto: (Arquivo pessoal/ Luís Corvini))
Entrada do estádio Mineirão para a partida entre Brasil
e Chile (Foto: Arquivo pessoal/ Luís Corvini)

Este ano, o jornalista assistiu às três partidas da seleção brasileira na primeira fase e ao jogo das oitavas de final contra o Chile. Entre as lembranças, ficou um rápido encontro com o zagueiro David Luiz depois da classificação para as quartas-de-final, no hotel onde a família do zagueiro estava hospedada. Coincidentemente, o mesmo local escolhido pelo jornalista para descansar em Belo Horizonte.

O mundial serviu ainda para Corvini Filho rever dois amigos australianos que conheceu em 2010, na África do Sul. “Somos a ‘football family’. É aquela família que vai sempre para as copas e vai se encontrar e vai curtir os bons momentos. Espero que nos encontremos também na Rússia”, afirmou.

Central da Copa

Além de bandeira, casa tem fachada decorada com o mascote da Copa (Foto: Marli Sebastião/ VC no G1)
Além de bandeira, casa tem fachada decorada com
o mascote da Copa (Foto: Marli Sebastião/ VC no G1)

A vida segue tanto para os fanáticos pela Copa do Mundo quanto para os que acompanharam o mundial em casa. É o caso de um grupo de amigas do Residêncial Cosmos, também em Campinas. Elas montaram uma espécie de “Central da Copa” no bairro. O muro na frente da casa de Anésia dos Santos, uma das amigas, ganhou o desenho do tatu-bola Fuleco, o mascote do mundial. O telhado foi coberto com  uma bandeira verde e amarela de 20 m de comprimento por 7 m de largura.

Quem confeccionou a bandeira foi a costureira Marli Cristina Sebastião. Ela conta que foram gastos quase R$ 500 na compra de tecidos e que a confecção demorou dois dias. “Antes da Copa, a Anésia, teve a ideia e investimos nisso. Eu apoiei e costurei tudo”, explicou.

A decoração deu certo e o local recebeu parentes e amigos do bairro nos sete jogos do Brasil na Copa. “Cada um trazia uma bebida, uma comida e a festa estava garantida – teve até costela no bafo”, conta Marli. Ela diz ainda que agora a vida volta ao ritmo normal. “O fim da festa é mais triste que os 7 a 1 que levamos da Alemanha, né? O jeito agora para evitar qualquer depressão é encontrar novos motivos para fazer festas aqui no bairro”, brincou a costureira.

‘Se os sintomas persistirem…’

Marilda Lipp, psicóloga especialista em estresse (Foto: Reprodução EPTV)
Marilda Lipp, psicóloga especialista em estresse
de Campinas (SP) (Foto: Reprodução EPTV)

Na avaliação da psicóloga Marilda Lipp, a derrota por goleada do Brasil na semifinal também pode contribuir para piorar a depressão pós-Copa do Mundo. “Com a perda, há outros sentimentos que surgem, como frustração, decepção, raiva, desilusão, remorso e culpa. Uma série de coisas começa a aparecer no ser humano em função de ele estar já prejudicado frente ao que está acontecendo”, explicou.

Se após o período de duas semanas a pessoa continuar sem vontade de fazer nada, a recomendação é verificar se sono e alimentação estão normais e, caso seja identificado mudanças nesses hábitos, a especialista recomenda avaliar a necessidade de procurar ajuda. “Comece a desconfiar se essa crise não desencadeou alguma patologia já dormente”, finaliza a especialista.