Jornal Correio Popular – Pressa demais pode encurtar a vida

Jornal: Correio Popular – Pag A09
Título: Pressa demais pode encurtar a vida
Data: 31/07/2011

Fazer várias coisas ao mesmo tempo, se irritar com a demora e sentir culpa com o ócio são sintomas de doença que pode levar a problemas cardíacos

Não é difícil achar homens e mulheres apressados, fazendo várias coisas ao mesmo tempo, tensos durante as conversas, irritados com a demora no trânsito e, o pior, com remorso quando “não estão fazendo nada”. Mas o que para muitos é fruto de uma rotina acelerada, para uma pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) são sintomas da síndrome da pressa, que pode levar a problemas cardíacos e, até mesmo, acelerar a morte.

De acordo com o estudo, 65% da população apresenta comportamento com tendência à síndrome, índice que entre executivos pode chegar a 95%. Do total, 10% podem desencadear a doença.

Segundo a psicóloga Marilda Lipp, que acompanhou o comportamento de 2 mil pessoas em dez cidades, entre elas São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas, pequenas percepções denunciam quem pode sofrer desse mal. Segurar objetos com força como se tivesse receio de perdê-los, sentar sem encostar na cadeira, comer e usar o computador ao mesmo tempo, carregar bolsas pesadas e papéis ou agendas onde anotam tudo são alguns exemplos.

“A pressa é mais comum em executivos que valorizam o fazer rápido tudo ou muitas coisas ao mesmo tempo, mas pode ocorrer em todas as idades. Em geral, as pessoas apressadas são muito valorizadas por aguentarem uma carga muito grande de tarefas. Essa valorização começa quase sempre na infância, com pais elogiando ou cobrando um desempenho acima da média”, explica Marilda Lipp.
Tem solução

A síndrome começou a ser descoberta a partir de pesquisas com pacientes estressados, em quem a pressa era uma característica marcante. “Ficamos em dúvida se esse era um traço só de pessoas estressadas e fiquei curiosa também se o cargo exercido afetava o nível da pressa”, lembra a psicóloga.

Mas nem tudo está perdido. “A primeira coisa é se conscientizar de que você tem esse problema. Ninguém consegue fazer tudo e terminar tudo.”

Produtora de eventos corre contra o tempo para passear

Basta andar nas ruas para encontrar alguns exemplos de pessoas para quem tudo tem de ser feito às pressas. A produtora de eventos Mayra Nogueira, de 24 anos, passa apressada segurando uma bolsa grande junto ao corpo, mas sem hora marcada. “Sou assim o tempo todo. Agora estou com pressa para ir na casa de uma amiga para passear”, confessa. A bancária Ângela Sforza, de 47 anos, justifica os passos rápidos com um compromisso. Carrega uma bolsa cheia e, nas mãos, agenda e muitos papéis. “Se não tive problema até agora, não tenho mais”, diz ela, ao comentar as consequências apontadas pela pesquisa da PUC-Campinas. Ângela não culpa a rotina da profissão, mas admite que se sente culpada quando não tem o que fazer. “Sou assim desde criança. Sou ansiosa e faço tudo rápido. Já consultei muita psicóloga que fala isso”, diz.

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