Revista Medicina Social (Abramge) – Doença da Modernidade

Revista Medicina Social – Abramge
Título: Doença da Modernidade
Data: 01/01/2013

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O que a China tem a ver com o estresse? No caso de Regina, tudo. Empresária, enfrenta competição acirrada com os seus produtos, desde que o Brasil abriu as portas para a importação. Ela toca sozinha uma fábrica de bolsas e brindes há 25 anos, em São Paulo, período em que cresceu muito e chegou a ter cerca de 250 funcionários.

Hoje, com a fábrica e os rendimentos reduzidos pela metade, tem hipertensão, trabalha à base de antidepressivos e não consegue dormir sem remédios. Recentemente, uma crise de labirintite a levou para o hospital com suspeita de AVC. A genética explica uma tendência maior para o estresse na mulher em relação ao homem. Nelas prevalecem os fatores ligados às relações afetivas, como conflitos conjugais, doenças de familiares e problemas com os filhos, enquanto os homens costumam ter estresse associado a fatores ocupacionais. Os dois sofrem, mas a evolução do estresse é pior na mulher, que chega com mais facilidade ao estado de exaustão.

O estresse também tem causas sociais, pois, apesar dos avanços, as mulheres continuam ganhando menos, são mais cobradas que os homens e têm múltiplos papéis – mãe, esposa, filha, profissional, dona de casa. Essa sobrecarga pode ser o estopim de transtornos mentais ou físicos, com destaque para os problemas cardíacos.

Sob pressão Em São Paulo, um levantamento realizado no Hospital do Coração (HCor) indicou que 50% dos executivos que passaram por check-up na instituição sofrem de estresse.

A investigação do HCor integra o Programa de Cuidados Clínicos no Infarto do Miocárdio, sob a responsabilidade do cardiologista Leopoldo Piegas, que também é membro do comitê do InterHeart, estudo que envolveu 52 países e teve como objetivo avaliar os riscos para doenças cardíacas. Segundo o cardiologista, algumas manifestações físicas do estresse são acompanhadas de taquicardia, pressão arterial elevada, sudorese e hiperventilação pulmonar, entre outras, desencadeadas pela estimulação do sistema nervoso simpático e da glândula adrenal. “Essas reações podem agir como fator desencadeante de um ataque cardíaco pela liberação de hormônios como adrenalina e noradrenalina, potentes estimuladores do aparelho cardiovascular, e aumentam o risco do infarto em 60%.”

No caso das doenças coronarianas, Leopoldo Piegas cita outros trabalhos em andamento, associando o estresse crônico a processos inflamatórios nas artérias, contribuindo para a arteriosclerose. “Esse processo acontece porque o estresse favorece a inflamação, que provoca a liberação de citocinas, substâncias que podem resultar na formação de placas e no entupimento dos vasos sanguíneos”, resume.

A psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da ISMA-Brasil, instituição internacional voltada para os estudos do estresse, reforça a informação do cardiologista e explica que o problema está associado a qualquer situação que requer a adaptação do indivíduo. Por isso mesmo pode ter consequências positivas ou negativas, dependendo do comportamento de cada um.

“Mas, mesmo em situações positivas, quando o estresse é provocado por uma promoção no trabalho, por exemplo, pode sencadear um infarto e levar à morte da pessoa”, alerta.

Pesquisas

Em Porto Alegre, onde fica a sede brasileira da instituição, uma pesquisa realizada pela ISMA com cerca de mil pessoas, com idade entre 25 e 60 anos, revelou que os principais motivos desencadeantes de estresse são a falta de tempo, que resulta em sobrecarga nas atividades diárias (62%); medo de perder o emprego (56%) ou uma carga grande de responsabilidade, mas pouca autonomia para tomar decisões (41%). A pesquisa constatou também que 81% dos entrevistados sofrem de ansiedade; 78% demonstram sentimento de angústia e 73% manifestam alto índice de preocupação. Como consequência, 54% dos entrevistados revelaram que recorrem ao uso do álcool para aliviar as tensões, 53% reagem com agressividade e descontrole emocional e 32% passam a apresentar distúrbios alimentares.

Outros dados da pesquisa indicam que 60% das pessoas que procuram tratamento são mulheres e, entre estas, 65% a 70% são profissionais ativas. Um contingente cada vez mais expressivo, também, é formado por crianças em idade escolar que são levadas aos consultórios por apresentarem o problema. “Isso decorre do estilo de vida adotado pelas famílias, em que as crianças são submetidas a uma agenda cada vez mais intensa e não sobra quase tempo para brincar”, alerta a psicóloga.

Sintomas e consequências

Os sintomas físicos do estresse muitas vezes podem ser idênticos aos de outras doenças, como úlceras, enxaquecas, problemas de coluna, asma e distúrbios cardiovasculares. Eles se somam às reações emocionais ou psicológicas – nervosismo, depressão, ansiedade, irritabilidade ou falta de humor, dificuldade de concentração e de memória, entre outras manifestações.

Nos casais, o estresse pode ter impacto negativo inclusive no tratamento de infertilidade. Esta foi a conclusão de um estudo realizado pela Universidade de Copenhague Dinamarca), que conseguiu estabelecer uma correlação entre o insucesso dos tratamentos e o estresse do homem e da mulher, embora com predomínio do papel feminino.

Em qualquer um dos casos, os profissionais que lidam com o problema são unânimes em afirmar que o melhor método para administrar o estresse é manter um estilo de vida saudável, com alimentação controlada e exercícios de relaxamento, que devem incluir técnicas de respiração, além de tempo para a família e os amigos.

A psicóloga Ana Maria Rossi, por exemplo, recomenda práticas que ajudam os pacientes a ter consciência dos efeitos do estresse no organismo e a adotar comportamentos positivos, como forma de evitar consequências mais graves. “Antes de qualquer iniciativa, porém, o indicado é que o paciente procure um clínico geral e passe por todos os exames para avaliar se o que está sentindo não é decorrência de nenhum distúrbio orgânico que pode ter sintomas semelhantes ao estresse ou se o estresse já provocou problemas mais sérios”, orienta.

Dicas para vencer o estress

1. Faça uma dieta balanceada. Alimentos ricos em frutas, legumes e fibras
combatem os radicais livres responsáveis por diversas doenças.
2. Pratique exercícios regularmente. Faça caminhadas de 30 minutos diariamente.
3. É importante fazer algum tipo de relaxamento, principalmente antes de dormir.
4. Procure trocar os pensamentos negativos por pensamentos mais adequados
e condizentes à sua realidade; assim, seu humor ficará melhor.
5. Quando estiver em meio a um problema difícil de resolver, pare por alguns
minutos e fixe sua atenção numa planta ou pense numa cena agradável.
6. Priorize suas atividades do cotidiano. Anote os tópicos em uma agenda; os
mais importantes em primeiro lugar.
7. Expresse sentimentos e ideias com cuidado para não magoar o outro.
8. Procure ter um espaço na sua casa para ficar sozinho de vez em quando.
9. Atividades de lazer são importantes para amenizar a rotina.
Fonte: Centro Psicológico de Controle do Stress – Marilda Emmanuel Novaes Lipp

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