BURNOUT: UMA BARREIRA ENTRE O PROFISSIONAL DA SAÚDE E O PACIENTE

Devido à própria dificuldade de lidar com o sofrimento alheio, os profissionais da área de saúde frequentemente se distanciam emocionalmente do paciente a fim de evitar o seu próprio sofrimento. Muitas vezes sem notar que estão fazendo isso. Quando esta evitação é muito intensa, ela pode ser representativa de uma situação de burnout. Infelizmente, pouco se tem estudado o que é o burnout e como ele se manifesta nos profissionais de saúde.

O burnout é um padrão de comportamento e de sentimentos que ocorre quando a pessoa está sujeita a fontes crônicas e intensas de stress emocional que ultrapassam sua habilidade de enfrentamento. Deste modo, toda profissão que lida com o sofrimento alheio de grande magnitude pode gerar burnout.

Uma das conseqüências mais acentuadas de um estado de burnout crônico é o da barreira que ele impõe entre o profissional e o paciente. Nestes casos, quanto mais sofrimento o paciente apresenta, mais indiferente o profissional parece se tornar, como se existisse uma barreira poderosa entre os dois.

O burnout tem uma atuação tríplice que pode afetar o médico, o psicólogo, a enfermeira ou outro profissional da saúde de modo dramático. Esta ação tríplice se processa da seguinte maneira:

  • Exaustão emocional: que pode manifestar-se física ou psicologicamente. A pessoa se sente exausta, sem energia e desgastada. Não dispõe mais de energia emocional para “sentir” o sofrimento do outro. Ela se distancia e não se comove ou se sensibiliza com a dor alheira;
  • Despersonalização: em que o “outro” perde as características emocionais de “ser humano” e é visto como um “objeto” que deve ser tratado com eficiência, mas não necessariamente com carinho ou compreensão. Isto tem sido identificado como sendo capaz de levar ao cinismo, a irritabilidade, a baixa tolerância e a falta de paciência. A insensibilidade que se desenvolve pode levar a procedimentos rápidos e objetivos, onde os sentimentos do paciente não são considerados;
  • Desrealização pessoal: quando a auto-estima sofre um rebaixamento. A pessoa sente que seu trabalho não é importante e fica desmotivada, indiferente.

O processo do burnout é gradual e por isto não é usualmente percebido até quando já está instalado. Seus efeitos se fazem sentir no modo de lidar com o paciente. Como no Brasil é infreqüênte que se discuta o fenômeno do burnout, é raro que se identifique sua presença no profissional antes que haja reclamações por parte do paciente.

A principal causa de insatisfação do paciente é justamente a aparente dificuldade de relacionamento que fica evidente entre ele e o profissional que ao atende. O tratamento do burnout leva a destruição desta barreira na comunicação profissional da saúde-paciente e ao estabelecimento de um vínculo menos íntimo e intenso, porém, mais humano e afetivo entre a díade.

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Marilda Emmanuel Novaes Lipp