GLOBALIZAÇAO E MUDANÇAS: O STRESS DO NOVO MILÊNIO

A imprensa nos traz relatos diários de alta incidência de stress em várias camadas da população. Minha experiência na área do stress – tanto na minha atuação no Centro Psicológico de Controle do Stress (CPCS), como também nas pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Estudos Psicofisiológicos do Stress (LEPS) da PUC-Campinas – me possibilita afirmar que o brasileiro está cada vez mais estressado e sem alternativas, pois a grande maioria não possui o conhecimento de como lidar com suas fontes de tensão.

As pesquisas do LEPS mostram cientificamente que isto realmente é uma realidade. Mostram também que quando o ser humano se encontra em um estado crônico de stress ou quando está sob a ação de um estressor agudo, sua saúde física e mental sofre consideravelmente.

Alem da saúde, comprovamos cientificamente que a qualidade de vida, a sensação de bem-estar e de plenitude também são muito afetadas.

O ser humano estressado mostra irritação e impaciência, além de dificuldade de se concentrar e de pensar de modo racional e lógico. Irritado, sem paciência e sem concentração ele não se relaciona bem com as outras pessoas, fica mais agressivo e menos interessado em assuntos que não o afetam diretamente. Na verdade, não se relaciona bem com ninguém, mesmo com aqueles aos quais ama verdadeiramente.

Neste estado, como pode ele ser um bom cidadão? Como se interessar pelo que se passa na sua comunidade, no seu país e no mundo? Como ele pode, em condições emocionais tão precárias, contribuir para o progresso da nossa sociedade? E como esperar que estressado, prejudicado em seu raciocínio, infeliz nos relacionamentos e muitas vezes doente fisicamente, ele venha a pensar em termos de outras comunidades mais necessitadas?

Inconscientemente, a pessoa portadora de stress excessivo passa a ter como meta principal a sobrevivência. Ela quer se livrar do sofrimento e readquirir o equilíbrio de suas emoções e forças. Não se trata de egoísmo psicológico, mas sim de uma situação de necessidade, como no sentido legal do termo.

Através de pesquisas, temos comprovado que o número de crianças estressadas também está aumentando. Isto porque pais estressados tornam estressadas as crianças que um dia também serão os pais estressados de outras crianças nesta mesma condição.

Que sociedade será a nossa dentro de alguns anos? Que futuro teremos se nada for feito para modificar esta situação? Claro que o cenário não é, na verdade, tão pessimista como em uma primeira análise possa parecer. Existem muitos meios de se reduzir o perigo futuro e presente do stress excessivo. Entre eles, medidas relacionadas diretamente ao ser humano, para o seu benefício específico em termos de saúde e de felicidade. E também medidas mais amplas que assegurem o bem-estar da comunidade. Mas, para que as ações de caráter macro possam ser implementadas, torna-se importante saber exatamente o que é o stress e quais fatores permanecem atuantes em sua etiologia.

O que é o stress?

Stress é uma condição de desequilíbrio do funcionamento, tanto físico como mental. Em momentos de tensão excessiva, todo o organismo é afetado. Se este equilíbrio é reestabelecido de pronto, não há danos maiores para a pessoa. No entanto, se a condição de desequilíbrio permanecer por tempo excessivo, as doenças começam a surgir e a impaciência, a ansiedade e a depressão se estabelecem.

Importante também é entender o que pode criar este desequilíbrio. Existem inúmeros fatores etiológicos do stress atual, tais como as condições internas relacionadas com as características de personalidade, o perfeccionismo e a autocobrança, entre outras, como bem exemplificado no meu livro “O Stress está Dentro de Você“.

Há também as fontes externas, isto é, os fatores representados pelas dificuldades que a vida apresenta. A sociedade atual está cada vez mais estressante. Assaltos, mudanças de valores, tecnologia avançada, aumento de desestruturação familiar, mudanças de hábitos sexuais, casamentos de duas casas, oportunidades para boas carreiras, excesso de competição e muitos outros fatores externos e internos que contribuem para que se viva constantemente em um alto nível de stress.

No entanto, há de se considerar que entre todos os fatores que contribuem para o aparecimento do stress, o que mais tem impacto é o constituído por mudanças. Todos os tipos de mudança exigem que a pessoa se adapte ao que está ocorrendo. O processo de adaptação tem o poder imediato de desencadear o processo do stress.

O Brasil, como todo o país em desenvolvimento, esta no centro de um processo de mudanças intensas. Entre elas, as mudanças de valores, de princípios, de hábitos, de tecnologia, do pensar e do fazer. Este processo fascinante, necessário e benéfico é também, a longo prazo, a fonte mais importante de stress para o homem que repentinamente precisa aprender uma nova maneira de pensar, de sentir e de agir. E tudo isto dentro de um tempo muito curto.

Não há mais tempo para aprender devagar ou para se estudar as opções. É necessário agir rápido e se adaptar mais rápido ainda. Quem não aceitar as mudanças e não se adaptar acabará perdendo e até sucumbindo. Isto é uma realidade nas empresas, onde quem não se adapta perde o emprego. Também é verdade no seio das famílias, onde quem não aceita os novos valores fica frustrado e infeliz. Quem não tem capacidade para se adaptar e aceitar as mudanças rápidas e profundas que estamos vivenciando, não conseguirá escapar da ação impiedosa do stress excessivo.

Essas mudanças, no nível micro do âmbito familiar e no nível macro da sociedade, no geral são geradas em parte por um fator no qual nem se falava há alguns anos atrás e que, sem dúvida, deve estar contribuindo para aumentar o nível de stress do ser humano em todas as nações: a globalização, ou melhor, o estressor do novo milênio.

Como diz o professor de sociologia Dr. Zygmunt Baum, da Universidade de Varsósia, “a globalização significa que todos dependemos uns dos outros, independentemente da distancia que nos separa. O que fazemos ou deixamos de fazer pode influir na vida de pessoas que nunca visitaremos e de gerações que jamais conheceremos”.

É ameaçador e, sem dúvida, estressante admitir que a existência de uma certa pessoa seja afetada pelo que se passa em países que nem se conhece e que suas ações possam também influenciar a vida de povos tão distantes. Parece até ficção científica.

As manifestações antiglobalizantes demonstram que a aceitação da globalização não é unanime. Os manifestantes antiglobalizantes, em sua primeira manifestação em Gênova, afirmaram que a globalização é a causa do aumento da pobreza devido à espoliação da economia de mercado. A intensidade desta demonstração e das seguintes indicaram o nível de stress experienciado pelos manifestantes.

Mostra ainda como é difícil para certas pessoas aceitarem as mudanças e a globalização que elimina as barreiras internacionais, que torna acessível os mais diferentes conhecimentos de nações e povos distantes, que ameaça transformar valores de uma cultura ou de outra em valores universais. A globalização que muitos temem vir a acabar com a individualidade dos povos e das culturas. A globalização que expõe as diferenças de modo contundente entre o poder, o luxo, o excesso de alguns povos e a pobreza e a miséria vergonhosa de outros. A globalização que torna clara uma desigualdade entre os seres humanos que, supostamente com direitos iguais, vivem todas as conseqüências das desigualdades econômicas, educacionais e sociais existentes.

Por outro lado, uma globalização que é muito positiva à medida que transfere para os paises em desenvolvimento a tecnologia avançada dos paises mais desenvolvidos. Tecnologia que exige adaptação e cria stress, mas que também gera empregos e oportunidades de aprendizagem e de progresso. Tecnologia que levou anos para que fosse alcançada e que podemos receber economizando muitos anos de pesquisa e investimentos.

Há, com certeza, a necessidade de nos adaptarmos aos efeitos da globalização, pois ela é irreversível. Podemos melhorar, inovar, mudar e aprimorar, mas não podemos parar o curso do tempo e do progresso.

Vivemos um momento de grandes mudanças e todas as mudanças geram stress. Devemos considerar os exemplos do passado para obter maior sabedoria na aceitação das novas idéias que nos amedrontam.

É importante lembrar que a teoria da evolução mostra que em momentos de grandes mudanças só sobrevivem os melhores, os mais preparados para lidar com o que é novo, aqueles que desenvolvem mecanismos de enfrentamento e aqueles que aprendem a viver com a mudança e se adaptam. Os que não conseguem uma adaptação ao que está ocorrendo ao seu redor não sobrevivem no mundo em mutação constante.

Este é o milênio das mudanças, da reorganização mundial, do entrosamento de valores, da transferência de tecnologia e da globalização de valores.

O stress está e continuará sendo grande, mas o ser humano – criança ou adulto – tem a capacidade de aprender estratégias de enfrentamento.

E é por isto que as pesquisas e os trabalhos clínicos do stress assumem tal importância neste século, que é o milênio da globalização, das mudanças e do stress, mas também o milênio em que será possível desenvolver – mais do que nunca – mecanismos de adaptação que garantam não só a sobrevivência, mas também uma vida de melhor qualidade para todos nós.

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Marilda Emmanuel Novaes Lipp