O STRESS EM CRIANÇAS E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A VIDA ADULTA

Inevitavelmente, toda criança enfrentará inúmeras situações de stress ainda nos primeiros anos de vida, tais como hospitalizações, acidentes, doenças, nascimento de irmãos, mudança de casa, de escola e de empregada, além das tensões geradas pela necessidade sempre maior de se autocontrolar.

As múltiplas etapas de desenvolvimento intelectual, emocional e afetivo trazem consigo a oportunidade do indivíduo desenvolver seu potencial genético. Porém, estas etapas são também assinaladas por inúmeras situações geradoras de tensão, muitas vezes incapacitantes para às crianças e para o seu frágil mecanismo de combate ao stress, como, por exemplo, o treino de toalete, a retirada da chupeta e o ingresso na escola.

A maioria das crianças reage ao stress com sintomas imediatos, como birras, hiperatividade, enurese e medos excessivos. Os pais, na maioria das vezes rapidamente percebem que o stress é demasiado para aquela criança e imediatamente tentam diminuir a tensão à qual ela está sujeita. Em geral, tudo isto é feito de modo intuitivo, sem sequer os pais saberem que estão lidando com o fenômeno “stress”. Problemas surgem, de fato, quando a tensão é extrema ou quando os adultos deixam de entender os sintomas da criança. Nestes casos, os danos emocionais e físicos podem ocorrer e se manterem por longos períodos de tempo.

Em muitas ocasiões, a criança que não aprendeu a lidar com o stress poderá tornar-se um adulto fragilizado, altamente vulnerável ao stress e, consequentemente, um ser humano que poderia ser considerado de alto-risco quanto à aquisição de várias enfermidades, cuja ontogênese é o stress.

Uma situação pode ou não ser estresssante para uma criança dependendo do estágio de desenvolvimento emocional em que ela esteja. Aquilo que talvez tenha um efeito menos grave em um bebê de 3 meses, que ainda não se percebe como um ente separado dos outros, pode afetar drasticamente uma criança de 18 meses, como uma separação da mãe. O nível de ansiedade e desconforto que esta separação vai acarretar dependerá, certamente, do seu nível de amadurecimento emocional/social e também do seu estágio de desenvolvimento intelectual. Primeiro, porque o nível de desenvolvimento da criança influencia como ela percebe e sente o que se passa ao seu redor. Por outro lado, o desenvolvimento emocional/social, com suas etapas às vezes difíceis de serem identificadas em cada criança, apresenta seus próprios conflitos.

Cada estágio deste desenvolvimento, como proposto por Erickson (1963), apresenta seus próprios problemas e conflitos a serem resolvidos e suas fontes específicas de ansiedade e stress. A criança, à medida que amadurece, muda sua maneira primitiva de lidar com o stress e incorpora em seu repertório novas estratégias de resposta.

Vários autores enfatizam que as experiências pelas quais o ser humano passa geram uma aprendizagem que determina seu comportamento futuro. Na área do stress, esta afirmação é extremamente relevante, pois, como observado por Lipp e Romano (1987), há crianças que parecem ser praticamente invulneráveis às tensões da vida, enquanto outras são muito sensíveis ao stress. A maneira pela qual a criança lida com seu stress vai determinar sua resistência às tensões da vida adulta.

Quando a criança consegue lidar bem com seu meio ambiente; quando este não lhe impõe a necessidade de exibir uma resistência acima de sua capacidade – ainda limitada; quando a ansiedade gerada pela vida não está além de sua capacidade de lidar com ela e a criança consegue se adaptar às tensões, ela cresce para ser um adulto mais competente no manejo do stress.

Quando, no entanto, as circunstâncias da vida são exageradamente estressantes e não permitem uma adaptação saudável, reações ao stress inadequadas são aprendidas, a pessoa terá na idade adulta a tendência de emitir estas respostas inapropriadas nas horas de tensão. Sendo elas respostas inadequadas, freqüentemente são ineficientes na resolução das dificuldades e, deste modo, tornam-se fontes internas de stress e acrescentam sua própria contribuição para que um nível ainda maior de stress seja gerado.

Vê-se, então, que o ensino de estratégias de controle do stress é importante não só para que a criança possa lidar com o seu stress diário, mas também como um preparo para a vida adulta.

O ensino de estratégias para o controle do stress é, em geral, realizado pelos pais de modo natural e não programado, à medida que as tensões surgem no dia-a-dia. Deste modo, os pais se tornam o principal veículo para transmissão de conhecimentos no controle do stress. Vê-se, portanto, que as atitudes parentais são de fundamental importância para que a criança – através dos seus vários estágios de desenvolvimento emocional – adquira uma resistência às tensões não só da infância, mas também do mundo adulto.

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Marilda Emmanuel Novaes Lipp