RELAÇÃO ENTRE STRESS E DEPRESSÃO

O stress é uma reação que possui componentes físicos, psicológicos, mentais e hormonais que pode se desenvolver frente a situações que representem um desafio para o indivíduo. Devido à ação perfeitamente integrada do stress sobre todo o organismo humano, seus sintomas podem ter uma caracterização somática ou psicológica. Algumas das manifestações físicas do stress são mais conhecidas e reconhecidas como tendo na sua gênese o stress como fator desencadeante, tais como doenças gastrointestinais, cardiovasculares, respiratórias, músculo-esqueléticas, dermatológicas e imunológicas. Porém, menos conhecidas são as conseqüências psicológicas do stress excessivo, tais como ansiedade difusa ou generalizada, insônia, esquizofrenia, episódios maníaco-depressivos e depressão.

Por causa das suas conseqüências, às vezes devastadoras, é muito importante que atenção especial seja dada a este assunto. A depressão é considerada como a condição que mais sofrimento traz ao ser humano. É capaz de destruir a felicidade e a qualidade de vida de qualquer pessoa. Reduz a criatividade e a produtividade do ser humano, tira a vontade de viver e interagir com os outros. Pessoas com depressão vivem a vida pela metade, como se todas as cores e todas as alegrias ao seu redor estivessem cobertas por um filó escuro. O depressivo sabe que as cores estão ali embaixo desta coberta de névoa, porém ele não consegue usufruir de sua beleza. Como a habilidade intelectual é inafetada, a pessoa sofre mais ainda por saber que a alegria está ali disponível e que ele dela não consegue usufruir.

Estima-se que a depressão seja responsável por uma grande parte das 70.000 pessoas que tentam o suicídio anualmente nos EUA. De acordo com as estatísticas do National Institute of Health, cerca de 125.000 pessoas são internadas anualmente com o diagnóstico de depressão. No Brasil, Nardi(1998) estima que haja cerca de 54 milhões de pessoas que um dia experimentarão depressão, sendo que 7,5 milhões terão episódios agudos e graves, até com risco de suicídio. Estima-se que a depressão atinja 15% dos homens e 25% das mulheres, sendo que nas mulheres a depressão é cerca de 50% mais diagnosticada do que os homens.

O número de pessoas com depressão parece estar aumentando, principalmente devido ao stress ocupacional, que também parece estar se maximizando nos dias atuais. Mas a depressão sempre existiu e o primeiro que a descreveu foi o médico e filósofo grego Hipócrates, que a chamou de melancolia e sugeriu que sua causa fosse a bile negra e venosa. No século II, Plutarco lhe atribuiu uma conotação religiosa, dizendo que “ele se olha como um homem que os deuses odeiam e perseguem…”.

Em 1952, o primeiro Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-I) incluiu o diagnóstico do humor depressivo.

Atualmente, se sabe que a depressão – chamada de “transtorno do humor” – pode ser de origem biológica, o que envolve uma predisposição genética. Ela pode ocorrer em associação a determinadas medicações; estar associada a outras doenças; ter como base práticas parentais inadequadas e cognições distorcidas e também ter em sua etiologia o fator stress como elemento desencadeador.

Pesquisas (Henry & Stephens, 1977) indicam que há uma correlação entre episódios de depressão e reatividade do eixo pituitária-adrenal-cortical, que se constitui em um dos eixos do stress, de modo que pela própria patofisiologia, tanto do stress como da depressão, é de se antecipar que a relação stress-depressão exista.

Na área psicológica, há também evidência de que a depressão possa ser um sintoma de stress patológico, principalmente do stress interpessoal. Depressão e stress se confundem e tornam o diagnóstico diferencial muito difícil em certos momentos. O quadro a seguir mostra os pontos em comum entre stress e depressão.

Quadro 1

Sintomas em comum do stress em fase avançada e dos transtornos de humor:

  • Sensação de cansaço e desgaste;
  • Diminuição da libido;
  • Dificuldades com a memória;
  • Autodúvidas;
  • Hipersensibilidade emocional;
  • Vontade de fugir de tudo;
  • Inabilidade de concentração;
  • Dificuldade de tomar decisões;
  • Confusão mental.

 

Os sintomas do Quadro 1 compõem um subquadro do diagnóstico do stress: a depressão.

Na verdade, a depressão enquanto sintoma do stress está relacionada às condições de adaptação do momento. Quando a necessidade de adaptação ultrapassa os recursos internos da pessoa, o quadro do stress evolui para a Fase de Quase-exaustão e, posteriormente, para a Exaustão.

Para tornar claro o processo de desenvolvimento do stress é necessário considerar que o quadro sintomatológico do stress varia dependendo da fase em que se encontre. Na Fase de Alerta – considerada a fase positiva do stress – o ser humano se energiza através da produção da adrenalina; a sobrevivência é preservada e uma sensação de plenitude é freqüentemente alcançada.

Na segunda fase – a da Resistência – a pessoa automaticamente tenta lidar com os seus estressores de modo a manter sua homeostase interna.

Se os fatores estressantes persistirem em freqüência ou intensidade, há uma quebra na resistência da pessoa e ela passa à Fase de Quase-exaustão. Nesta fase, o processo do adoecimento se inicia e os órgãos que possuírem uma maior vulnerabilidade genética ou adquirida passam a mostrar sinais de deteriorização.

Em não havendo alivio para o stress através ou da remoção dos estressores ou através do uso de estratégias de enfrentamento, o stress atinge a sua fase final – a da Exaustão, onde doenças graves podem ocorrer nos órgãos mais vulneráveis, como enfarte, úlceras e psoríase, dentre outros. A depressão passa a fazer parte do quadro de sintomas do stress na Fase de Quase-exaustão e se prolonga na Fase de Exaustão.

 

O diagnóstico diferencial entre a depressão sintoma de stress e outros tipos de depressão, inclusive a biológica que ocorre como efeito colateral de medicamentos e a que faz parte do quadro de transtorno psiquiátrico, é bastante complexo. Para se diferenciar a depressão sintoma de stress é preciso analisar se a pessoa está tendo que fazer um esforço muito grande para se adaptar a algo, como por exemplo uma hospitalização, mudança de emprego ou separação conjugal.

Nos casos da depressão sintoma de stress, uma vez resolvido o estado de tensão, a depressão desaparece sem necessidade, na maioria das vezes, de medicação anti-depressiva. O tratamento da depressão sintoma de stress é realizado através do uso dos quatro pilares do treino de controle do stress: alimentação anti-stress, relaxamento muscular, exercício físico e reestruturação cognitiva.

 

Referencias:

Everly, G. & Rosenfeld, R.(1979) The Natrue and Treatment of the Stress Response, New York: Plenum Press
LaHaye – s T. (1990) How to Win over Depression. Toronto: Batam Books

Nardi, A E. (1998) Questões Atuais sobre Depressão. São Paulo: Lemos Editorial

Siegel, Judith (1992) Anger and Cardiovascular Health. In H.Friedman (Ed.) Hostility, coping and Health. Washington, DC:APA. Pp 49-64

Ingram, Rick; Miranda, Jeanne & Segal, Zindel. (1998). Cognitive Vulnerability to Depression. New York: Guilford Press

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Marilda Emmanuel Novaes Lipp