STRESS NA ATUALIDADE: QUALIDADE DE VIDA NA FAMÍLIA E NO TRABALHO

Anteriormente aos ataques de 11 de setembro, o índice de pessoas com stress nos Estados Unidos era de aproximadamente 25% nas populações das grandes cidades. No Brasil, a incidência de stress é ao redor de 32% na população adulta. Além dessa, há outras diferenças entre a realidade americana e a brasileira em relação ao stress.

Nos EUA, não há diferença na incidência de stress entre homens e mulheres e o índice de crianças com stress é baixo. No Brasil, a realidade é outra. Uma pesquisa realizada pelo Centro Psicológico de Controle do Stress (CPCS) em São Paulo avaliou 1818 pessoas que transitavam no Aeroporto de Cumbica e no Conjunto Nacional e que se prontificaram a responder ao Inventário de Sintomas Informatizado. Ela mostrou que 32% das pessoas entrevistadas tinham sinais significativos de stress, sendo 13% homens e 19 % mulheres. Esta surpreendente pesquisa foi a primeira a indicar que no nosso país as mulheres apresentam mais stress do que os homens.

Em algumas camadas da população brasileira, o stress é ainda mais freqüente e intenso, especialmente dependendo da ocupação exercida. A tabela abaixo mostra a incidência de stress em algumas profissões pesquisadas.

STRESS OCUPACIONAL NO BRASIL

Ocupação
Percentual com stress
Autor da Pesquisa
Professores
35%
H. Reinhold
Atletas juvenis (natação)
37%
S. Veri
Atletas juvenis
(tênis e basquete)
50%
S. Veri
Atletas (futebol)
45%
S. Veri
Psicólogos clínicos
Sem stress significativo
M. A. Covolan
Policiais militares
65%
A. S. Romano
Executivos
40%
M. N. Lipp
Jornalistas
(mídia escrita diária)
62%
I. Proença
Juizes do Trabalho
70%
M. N. Lipp e
S. Tanganelli
Bancários
65%
A. C. Araújo

Fonte: Dissertações de mestrado e pesquisas orientadas pela Dra. Marilda Novaes Lipp

 

Em uma pesquisa intitulada “Diferenças de Gênero na Manifestação de Stress em Adultos Jovens”, verificou-se o que mostram as tabelas seguintes:

OCORRÊNCIA DO NÍVEL GERAL DE STRESS POR ANO ESCOLAR
1o. ano colegial
58%
3o. ano colegial
70%
Cursinho pré-vestibular
83%
1o. ano da faculdade
57%
3o. ano da faculdade
60%
GRUPO GERAL
65,6%

Fonte: Sandra Leal Calais; Lívia Batista de Andrade e Marilda Novaes Lipp

 

INCIDÊNCIA DE STRESS POR GÊNERO NOS GRUPOS
Mulheres
Homens
1o. ano colegial
40%
18%
3o. ano colegial
40%
30%
Cursinho pré-vestibular
45%
38%
1o. ano da faculdade
35%
22%
3o. ano da faculdade
42%
18%

Fonte: Sandra Leal Calais, Lívia Batista de Andrade e Marilda Novaes Lipp

 

INCIDÊNCIA TOTAL DE SINTOMAS DA FASE RESITÊNCIA POR GÊNERO
Sintomas
Mulheres
Homens
Esquecimento
51,3%
32,4%
Mal-estar
38%
13,3%
Formigamento
13,3%
18,6%
Desgaste
53,3%
33,3%
Mudança apetite
51,3%
19,3%
Problemas dermatológicos
30,6%
15,3%
Cansaço
53,3%
27,3%
Gastrite
25,3%
14,6%
Tontura
37,3%
15,3%
Emotividade
68%
21,3%
Dúvidas
46%
24,6%
Pensamento recorrente
46,6%
36,6%
Irritação
54%
28%
Diminuição libido
7,3%
2,6%

Fonte: Sandra Leal Calais, Lívia Batista de Andrade e Marilda Novaes Lipp

 

 

Conseqüências do Stress Excessivo

O equivalente a mais de 400 milhões de dias de trabalho são perdidos por ano nos EUA devido a doenças. Se estima-se que 50% das doenças que levam ao absenteísmo sejam desencadeadas pelo stress. Na atualidade, 50% das mortes também se devem a doenças cardiovasculares, enfartes e derrames que têm o stress como base na maioria das vezes.

O quadro a seguir mostra o que o Centro Americano de Controle de Doenças acredita ser a contribuição de vários fatores para o desencadeamento das doenças.

 

CONTRIBUIÇÃO DE FATORES PARA AS 10 CAUSAS DE MORTES ANTES DOS 70 ANOS

Fatores Causa da Morte
Estilo de vida
Ambiente
Biologia
Outros
Doenças coronarianas
54%
9%
25%
12%
Câncer
37%
24%
29%
10%
Acidentes de carro
69%
18%
1%
12%
Outros Acidentes
51%
31%
3%
14%
AVCs
50%
22%
21%
7%
Homicídios
63%
35%
2%
0%
Suicídios
60%
35%
2%
3%
Cirroses
70%
9%
18%
3%
Pneumonias/gripes
23%
20%
39%
18%
Diabetes
34%
0%
60%
6%
MÉDIAS
51%
20%
20%
9%

Fonte: Centro Americano de Controle de Doenças (EUA)

 

É possível verificar na tabela acima que o estilo de vida é o fator contribuinte mais importante para a morte prematura. O estilo de vida está diretamente relacionado ao stress. Pode-se dizer que o stress excessivo tem em sua gênese sempre em hábitos de vida inadequados. O stress é oriundo da não-adaptação do organismo ao que está acontecendo. Só hábitos de vida adequados podem promover a saúde global e a adaptação do indivíduo na luta contra o stress excessivo.

As empresas americanas perdem cerca de 52 milhões de dólares por ano devido ao enfarte. Para cada trabalhador que morre de acidente de trabalho, 50 morrem de problemas cardíacos. O stress ocupacional causa um prejuízo entre 75 a 100 bilhões de dólares ao ano às empresas americanas devido a absenteísmo, diminuição de produtividade e custos médicos.

Uma pesquisa realizada na Inglaterra em 1999 demonstrou que 42% dos funcionários entrevistados sempre saem do trabalho exaustos. Questiona-se qual seria esse percentual se esta mesma pesquisa fosse realizada no Brasil.

Na verdade, está começando a se reconhecer a responsabilidade das empresas frente ao stress do funcionário, não só em termos de conseqüências pessoais e ocupacionais, mas também em relação à família.

Sem dúvida, a ocupação da pessoa pode causar stress e stress excessivo causa doenças, afeta a qualidade de vida e reduz a sensação de bem-estar.

Muitos consideram que as condições de trabalho atuais sejam inevitáveis e que o stress seja condição usual. Há também o mito de que cada funcionário deve adquirir “o corpo e a mente que sua função lhe dá”. Porém, não se deve aceitar tais mitos. Existe espaço para adaptações empresariais e a possibilidade de se conseguir a “função certa para a pessoa certa”.

O sucesso é ser feliz. O ser humano mais feliz e preenchido em sua esfera pessoal é o melhor funcionário que uma empresa pode desejar. Ele produz, cria, tem menos conflitos familiares, sua saúde é melhor, lida melhor com o stress e permanece no trabalho por anos.

 

Stress ocupacional

A partir de 1999, o stress ocupacional passou a ser o foco de inúmeras ações. Em alguns países, a importância do stress ocupacional para o bem estar da própria nação começou a ser compreendido.

O Instituto Nacional de Saúde e Segurança do Trabalho dos EUA publicou em 1999 recomendações sobre o stress no trabalho. Neste documento é enfatizado que o stress ocupacional deve ser prevenido e tratado dentro das empresas, pois representa uma ameaça não só para a saúde do trabalhador, mas também para as organizações.

Também em 1999, a Comissão de Saúde e Segurança da Inglaterra publicou documento onde diz que o stress ocupacional vem adquirindo uma relevância cada vez maior. Afirma ainda que o stress ocupacional passou a preocupar não só ao trabalhador, mas também aos empregadores e ao público no geral.

A Comissão de Saúde e Segurança inglesa enfatiza que a prevenção do stress deve ser horizontal e vertical. Horizontal no sentido de incluir a ação de vários setores da sociedade de modo abrangente e vertical no sentido de envolver os esforços de vários níveis, tais como do próprio cidadão, do empregador e do governo.

A Bélgica também reconheceu a importância da prevenção do stress ocupacional. O Conselho Nacional do Trabalho belga promoveu em 1999 um acordo entre empregadores e lideres trabalhistas sobre a prevenção coletiva do stress ocupacional. Definiram o stress ocupacional como “um estado de desconforto, de sensação negativa experimentado por um grupo de trabalhadores, acompanhado de queixas ou disfunções físicas, mentais e/ou sociais”.

O acordo enfatiza que as ações de prevenção coletiva do stress competem às empresas, que teriam a responsabilidade de:

  • Analisar a situação de trabalho existente;
  • Detectar os estressores ocupacionais;
  • Avaliar os riscos destes estressores;
  • Tomar as medidas de prevenção ou tratamento.

A idéia básica do Conselho Nacional do Trabalho da Bélgica é que o empregador deve tentar adaptar o trabalho ao trabalhador. Em fevereiro de 1999, o Parlamento Europeu também publicou uma resolução sobre o stress ocupacional. Esta resolução especifica:

  • O trabalho deve ser adaptado às habilidades do empregado e vice-versa;
  • Nova legislação é necessária quanto ao stress e ao burnout;
  • Atenção especial deve ser dada a quem desempenha trabalhos repetitivos e de turno.

Também em 1999, considerando a natureza endêmica do stress ocupacional e as sérias conseqüências que ele tem para a saúde, cientistas da Europa, EUA e Japão se reuniram em Tóquio. Dessa conferência resultou a “Declaração de Tóquio” quanto ao stress ocupacional, que propõe a melhoria da saúde e do bem-estar da força laborial através da prevenção do stress ocupacional. A responsabilidade dessas ações caberia primordialmente ao empregador. Porém, estas ações deveriam também contar com a colaboração de empregados e suas uniões, instituições de seguro-saúde, governo, organizações não-governamentais, associações de classe, instituições educacionais e do próprio indivíduo.

A Declaração de Tóquio está sendo recomendada nesses três países como diretrizes para ações voltadas para o controle do stress ocupacional.

 

A que fatores se atribui o aumento do stress ocupacional atual?

Três transformações que mais estão afetando o stress no trabalho são:

  • Globalização;
  • Computerização / Informatização;
  • Mecanização na produção de serviços e produtos.

Há outro aspecto a se considerar quanto ao stress na atualidade. A literatura internacional começa agora a analisar uma área em geral negligenciada nos estudos anteriores do stress: a relação do stress ocupacional e suas conseqüências na família.

Vários autores enfatizam a necessidade de uma atenção maior ser dada não só aos efeitos do stress ocupacional no cônjuge e nos filhos, mas também às implicações que uma vida familiar estressante pode ter na criatividade e no trabalho.

O mito dos “mundos separados”é um idealismo que não se sustenta. Há um impacto claro e visível do stress familiar no trabalho e do stress ocupacional no bem-estar e felicidade pessoal e familiar. A relação trabalho-família-stress passou a ser considerada como parte do âmbito da saúde ocupacional.

O ser humano é um sistema fechado. Não é possível se valorizar e tratar uma parte e deixar que as outras sofram descaso. Torna-se importante reduzir o stress em todas as áreas de atuação e tornar a interação entre o ambiente trabalho-família-lar mais saudável e mais facilitador da produtividade e do sucesso.

É necessário identificar os fatores organizacionais propensos a contribuir para o adoecimento da relação familiar a fim de evitar que o stress da família retorne impiedosamente para o ambiente de trabalho. Por outro lado, importante também é identificar fatores familiares que possam estar interferindo com o bom desempenho ocupacional.

O conflito trabalho-família reduz significativamente a satisfação no trabalho e na vida, afetando de modo dramático a criatividade e a produtividade da classe gerencial e diretiva de uma empresa.

A fim de obter sucesso no gerenciamento da relação trabalho-família, o funcionário de alto nível necessita atingir equilíbrio no desempenho de duas funções básicas:
(1) a do profissional qualificado, independente e produtivo e
(2) a do marido (esposa) e/ou pai (mãe) afetuoso(a) e companheiro(a), de modo que o stress que eventualmente ocorra em um ou outro campo de sua vida possa ser utilizado sempre a seu favor, de sua empresa e da sua família.

O estudo do stress na atualidade aponta para a necessidade clara de medidas preventivas de tratamento do stress excessivo, seja no trabalho ou na vida pessoal. Com base em nossa experiência de tantos anos sobre stress, gostaria de enfatizar:

Independentemente de a quem se diga que compete a responsabilidade de ações preventivas no campo do stress, sinto que esta responsabilidade deve caber em primeiro lugar ao próprio indivíduo.

– A responsabilidade pela própria vida é de natureza indelegável. Não se seve delegar para outros o dever de ser feliz. As empresas têm, no entanto, a função essencial e também indelegável de contribuir para que seus funcionários entendam a responsabilidade que têm pela promoção da sua própria saúde.

Em um país em desenvolvimento, como o Brasil, onde o povo foi treinado por anos a não ter iniciativa própria e a esperar que um empregador paternalista tome conta de suas necessidades, há de se compreender que mudanças na aquisição de responsabilidades devam ser promovidas de modo sistemático e contínuo pelas empresas através dos anos.

Tal atitude não só promoverá maior produtividade, menor absenteísmo e menores custos médicos, mas também contribuirá para promover uma melhor qualidade de vida na família e no trabalho da sociedade no geral.

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Marilda Emmanuel Novaes Lipp