STRESS, SOCIEDADE E PSICOSSOMÁTICA

Toda mudança significativa gera uma necessidade de adaptação por parte do organismo. Esta, por sua vez, exerce um papel determinante na patogênese do stress. À medida que o ser humano passa por mudanças, ele utiliza suas reservas de energia adaptativa. Conseqüentemente, pode enfraquecer sua resistência física e mental em certas circunstâncias, dando origem a inúmeras doenças psicossomáticas que podem ser interpretadas como tendo em sua gênese o stress emocional excessivo.

As mudanças ocorridas na sociedade moderna são marcantes. Elas são excitantes, frenéticas e, muitas vezes, rápidas demais para permitir ao homem uma absorção do seu ritmo e do seu significado. Elas atordoam e provocam. Tem-se que estar alerta frequentemente para que o expert de hoje não se torne ultrapassado em questão de semanas, principalmente em certas áreas de atuação.

O homem visto como o elemento crítico que tudo permite e nada nega se depaupera na competição e se estressa na tentativa incessante de ganhar e possuir mais a fim de manter o poder aquisitivo. A competição excessiva, o desejo intenso de “possuir”, a pressa, o medo do outro ser humano quanto a assaltos, roubos e demais crimes e a pressão diária que as pessoas bem-sucedidas se impõem inegavelmente afetam sua qualidade de vida. Deste modo, a qualidade de vida – objetivo maior de toda a humanidade e razão pela qual muitas vezes se almeja ganhar e possuir – é prejudicada, pois uma vida de medo necessariamente fica aquém do que se almejaria como uma vida de boa qualidade.

As mudanças nas áreas da tecnologia e da ciência estão ocorrendo concomitantemente as que se desenrolam, não só em nível da macroorganização do mundo, mas também em nível das organizações políticas, econômicas, sociais, empresariais e, em nível mais micro, das organizações familiares.

No seu conjunto de aspectos positivos e negativos, as mudanças verificadas levam a repercussões em outras áreas, tais como mudanças em hábitos do viver, sejam no contexto da organização familiar ou das organizações empresariais. O homem vive hoje de modo muito diferente. Esses novos hábitos nem sempre representam avanços do ponto de vista da qualidade de vida. Qualidade é confundida com quantidade. Aspectos importantes do viver são relegados à categoria de baixa prioridade, tais como os relacionamentos interpessoais, a afetividade e a saúde. No nosso entender, a qualidade de vida só pode estar boa se ela estiver adequada nos quadrantes social, afetivo, profissional e no referente à saúde. Se ela estiver excelente em um destes quadrantes, como no profissional, por exemplo, e deficitária nos demais, não se pode considerar que a qualidade de vida esteja aceitável.

Curiosamente, as mudanças ocorridas no nível da organização da sociedade estão correlacionadas com outras referentes à saúde. No século passado, por exemplo, a causa mais freqüente de morte era a infecção. Hoje, a causa mais freqüente são as doenças cardiovasculares. A hipertensão arterial é responsável por uma grande parte das mortes devido as AVCs. E mais: enquanto por anos mais homens do que mulheres sofriam enfarte e parada cardíaca, hoje o número de mulheres acometidas por estes males sobe assustadoramente. Um dos fatores contribuintes para a patogênese destas doenças é inegavelmente o stress.

Como toda mudança que exige adaptação por parte do organismo causa um certo nível de stress, é de se esperar que todas as mudanças de organização – de macro ou microporte – possam potencialmente colocar a pessoa em situação de stress. Como no Brasil essas mudanças estão ocorrendo num ritmo vertiginoso, é de se entender porque o nível de stress da população esta tão alto.

Uma pesquisa realizada com 100 pessoas que estavam simplesmente fazendo compras em um shopping center em Baltimore (EUA) e com outras 100 pessoas em um shopping em São Paulo revelou que 30% dos americanos apresentavam sintomas de stress, enquanto que no nosso contexto este percentual se elevou para 70%.

Inúmeras dissertações de mestrado realizadas por psicólogos revelam também um alto nível de stress nas mais variadas camadas da população. Os trabalhos que estudaram o stress ocupacional de alguns profissionais revelaram um alto nível de stress em executivos (tanto homens, como mulheres), policiais militares, professores e bancários. No caso dos bancários, foi surpreendente verificar a alta incidência de doenças cuja patogênese se julga envolver o stress, tais como hipertensão arterial, úlceras, problemas dermatológicos, retração de gengivas etc.

Esta incidência tão marcante de doenças entre bancários talvez se deva ao fato de que se trata de uma população que não recebe atenção regular suficiente de programas de conscientização em relação aos fatores de risco. Quanto aos executivos, embora o nível de stress também seja alto, eles recebem atenção maior das empresas em conseqüência do trabalho oneroso que eles desempenham. Hoje em dia, é bastante comum que se promova cursos e palestras para esta população. Porem, é bem menos freqüente que estas informações se tornem disponíveis para funcionários menos graduados, como, por exemplo, os de linha de produção. Infelizmente, mesmo no nível gerencial o treino de controle do stress ainda não é realizado com a freqüência necessária.

Numa sociedade em mutação como a nossa, ainda imatura em seu desenvolvimento, mas com um potencial imenso para realizações e progresso, há de se prever que o stress continuará presente ou tenderá a aumentar. Também é de se prever que haja um aumento cada vez maior de doenças psicossomáticas ligadas ao stress, a não ser que medidas profiláticas de ensino de manejo e gerenciamento do stress sejam implementadas e que o tratamento do stress seja oferecido pelos planos de saúde.

sem-capa

Marilda Emmanuel Novaes Lipp